O Homem-Massa
"Por isso não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia."
São Paulo, 2Cor 4,16
O homem-massa não sabe o que é o tempo. Na verdade, vive por ele. É controlado por ele. É escravo dele. Mas não sabe o que ele é. E, contudo, obedece-lhe cego. Sem critério.
O homem-massa é ganancioso. Porque não sabe o que é o tempo, porque é consumido pelo tempo, e ainda assim nunca está contente com o tempo que tem. Quer sempre mais. O tempo que tem é sempre pouco, mesmo que seja igual ao tempo de todos os demais. Para ele, os minutos têm menos segundos, as horas menos minutos e os dias menos horas. A semana não tem dias porque estes se sucedem sem pausa. E os meses são apenas a recordação de que certas coisas voltam a acontecer e que, por isso, o tempo existe.
O homem-massa não tem olhos. Perdeu-os. Talvez algures no caminho. Os olhos que tinha não brilhavam. Não sorriam. Não nada. E por isso cansaram-se de ser olhos, mas apenas meros instrumentos do olhar. Que já não sabem ver.
O homem-massa não comunica. Não partilha o que vai dentro dele. Porque não sabe comunicar e não conhece o que tem para partilhar. A sua vida são letras e números. Por vezes palavras e raramente frases. Mas que vagueiam dentro de si por essa impossibilidade de as exteriorizar.
O homem-massa anda sozinho. Anda porque não pode e não consegue estar parado. Tem sempre coisas para fazer, mesmo quando já acabou todas as suas tarefas. Precisa de caminhar para ocupar o tempo de que é escravo. E sozinho, porque já não tem ninguém. Sem poder partilhar isolou-se. E aqueles por quem passa são apenas esses. Pessoas sem rosto. Sem nome. Sem sentimento. Sem nada.
O homem-massa não tem coração. O seu coração morreu. Parou. Recusou-se a viver sem tempo. E ele recusou-se a ter coração. Vive feliz sem ele porque não tem que o ouvir queixar-se. Na verdade, também não tem consciência, nem sentimento. Não sente alegria nem tristeza. Nem sente.
O homem-massa morreu. Mas ainda não se deu conta disso e continua a deambular sem rumo pela vida, à procura de coisas para fazer e de tempo para ocupar.
O homem-massa está morto. Mas segue vivo e bem vivo em cada um de nós.
"Deveis, no que toca à conduta de outrora, despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores; (...) e deveis revestir-vos do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade, próprias da verdade" São Paulo, Ef 4,22.24
Querida Mãe,
perdoa-me por me estar a converter num homem-massa e ajuda-me a voltar a vestir o homem-novo que sei que pode existir em mim.
Obrigado.