quinta-feira, setembro 27, 2007

As palavras que nuncas vos diremos

"Meus filhinhos, é mais poderoso o espírito que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles são do mundo; por isso falam a linguagem do mundo, e o mundo ouve-os. Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus ouve-nos; quem não é de Deus não nos ouve. É por isto que nós reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro." Primeira Carta de São João 4, 4-6


Queridos meninos,

como custa fazer-vos entender uma verdade tão simples. Como custa explicar-vos o difícil que é estar no Mundo e não ser do Mundo. Como custa que percebam que levam em vós um Espírito que não é do Mundo, mas que é mais poderoso que o próprio Mundo, pois foi Ele que o criou.

Às vezes gostávamos de vos dizer "não é por aí o caminho" ou "não é aí que Deus te quer" ou mesmo "faz aquilo porque é de Deus". Mas não podemos. Porque se vos fez livres Deus, mais livres vos devemos nós deixar ser.

Mas custa, dentro de nós...

Porque vos vimos crescer. E vimos crescer em vós o pedacinho de Deus que transportam. Com alegria vos vimos descobrir esse pedacinho. Às vezes até com um orgulho que não nos é devido - pois não é nunca obra nossa mas do Deus que nos requisitou as mãos - vimo-vos caminhar onde Deus vos quer levar. Com o vento e sem perder tempo. E tudo isto nos alegra. E tudo isto nos enche. Porque também vós sois para nós o Deus que se faz presente nas nossas vidas e nos questiona o nosso próprio actuar.

E por isso vos chamamos meninos, como São João chamou filhinhos aos seus. Porque nos sentimos responsáveis por vós ao mesmo tempo que sabemos que há um Pai que vos cuida melhor do que alguma vez poderemos fazer.

Queridos meninos,

há alturas em que até nós nos esquecemos que Deus cuida, que Deus protege, que Deus actua. Há alturas em que até nós chegamos a pensar que não há Deus quando os olhos não brilham ou quando as palavras não são sinceras - alturas em que nos esquecemos que Deus é mais que o fogo, que é o combustível. E nesses momentos vos pedimos descupa, na esperança que entendam que, como dizia o mesmo São João, "Deus é amor", e que, como dizia Santo Agostinho, "é por amor que o pai bate no filho se fôr para o educar".

Se vos vamos dizer isto? Provavelmente nunca. São coisas do nosso coração. Coisas que não devem sair. Coisas nossas e de Deus. Mas que, secretamente, gostávamos que soubessem, não pelas nossas bocas, mas talvez por uma suave brisa de inspiração divina.

E saibam que rezaremos por vós ao Pai Celeste e à Sua Mãe para que não deixe de vos educar. Na certeza de que Eles vos agarrarão forte, como Jesus agarra o abade Menas, quando vocês se perderem ou extraviarem ou se esquecerem do que mais importante houver para lembrar, mas na certeza também que Eles vos abraçarão, como Jesus abraça o abade Menas, de cada vez que vocês se encontrarem, forem fiéis e se lembrarem daquilo que verdadeiramente vos guia, que é vossa luz, vossa força e vossa salvação.

Reunidos na paz do Pai que nos congrega nos despedimos.


"Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo, pois Ele é a vítima que expia os nossos pecados, e não somente os nossos, mas também os de todo o mundo." Primeira Carta de São João 2, 1-2