A escrever é que a gente se entende
Querida Mãe,
Como em quase todas as vezes em que te tenho escrito, faz já muito tempo que te não escrevo. Demasiado, provavelmente. E não foi por falta de aviso. Não foi por falta de saber a falta que isso me faz. Foi mais bem por essa doença que tanto singra por aí e cujos sintomas passam por um constante balbuciar de frases como "Não tenho tempo". Defeitos de crescido, alguém diria.
Ontem foi dia de pensar. De pensar verdadeiramente no silêncio que não fiz no fim-de-semana e naquilo que realmente disse.
E "não levo Cristo a sério." Não levo. Não levo mesmo. Nem um bocadinho.
Custa levar, é um facto. Mas falta-me o método, falta-me a organização, falta-me um caminho realmente traçado. E falta-me acreditar.
É, também essa, uma verdadeira doença de adultos, que eu queria muito não ter - embora nada faça para me curar. Porque só as crianças acreditam nisso. Um adulto não consegue. Um adulto não acredita em santos, nem em no poder de Deus, nem em nada. Um adulto faz. É. E pronto. Já fica contente por ser e fazer e não pensar naquilo que é nem naquilo que faz. Assim sou eu.
E porque não é isto que quero, porque não é isto com que sonho, porque não é isto que quer quem me importa e quem comigo - e com a minha santidade - se importa, quero mudar. E quero mesmo. E este é só o difícil primeiro passo. Aquele passo dado com pernas trémulas e dormentes de quem está sentado à demasiado tempo. Desconfortável, mas não o suficiente para mudar de posição. E assim ficou. E agora levanta-se a custo e quer muito andar. Gostaria de correr, mas fica contente se conseguir andar durante uns tempos.
Se a concha que me fizeste chegar é um caminho, querida Mãe, então eu quero tentar fazê-lo. Mal, ou bem. Mas quero tentar fazê-lo. E conto contigo e com cada pedacinho de quem me entregaste para me ajudar.
Obrigado por me teres recordado que o Deus me entregou uma espada.
Obrigado por me teres recordado que há um mundo à espera de ser renovado.
Por mim.
Teu,
Cavaleiro Santo de Maria