Olhos que brilham
"Ninguém acende uma candeia para a cobrir com um vaso ou para a esconder debaixo da cama; mas coloca-a no candelabro, para que vejam a luz aqueles que entram. Porque não há coisa oculta que não venha a manifestar-se, nem escondida que não se saiba e venha à luz."
No ínicio havia uma luz. Pequenina. Mas que era uma luz.
Tinha um grande coração, por muito difícil que seja para nós imaginar uma luz que tenha um coração. Esta tinha-o. E o seu coração era grande e bonito. Estava cheio de uma coisa que ela não sabia como se chamava. Um dia quis dar-lhe nome e chamou-lhe amor.
Esta luz vivia num sítio claro, iluminado. Porque ela era a luz e iluminava tudo ao seu redor.
Um dia, passeando no seu jardim claro e iluminado encontrou um canto que estava imerso por uma núvem escura. A princípio assustou-se. Mas depois pensou que tinha de fazer algo por aquele cantinho que parecia estar habitado.
Aproximou-se. Pôde ver melhor esse cantinho, onde uns bichinhos com mãos e com pernas, que não paravam sossegados e eram, no geral, bastante tontos da cabeça. Tentou falar com alguns deles. Mas como a linguagem das luzes não era exactamente igual à linguagem desses bichinhos - a que chamou homens -, a comunicação não era uma coisa fácil.
E então teve uma ideia. Arranjou um pauzinho e acendeu-o. Era como se fosse um pedacinho de si, um pedacinho da sua luz, o que ali estava. E atirou o pau para o canto do seu jardim que vivia às escuras.
Ora o pau, mesmo sem nunca ter estado naquela parte do jardim, parecia já o conhecer desde sempre. Ele disfarçou-se de homem para ninguém dar por ele. E a verdade é que muitos não deram mesmo por ele. Mas como, na verdade, ele era uma luz, muitos se deram conta e andavam atrás dele porque queriam ver a sério. Gostavam mais de passear e correr no jardim quando ele estava iluminado.
Esses Homens (e agora já é com letra grande porque já conheciam a luz) estavam sempre a pedir ao pau que lhes falasse da luz, aquela que o tinha enviado. Gostavam de o ouvir falar. E, uma vez, até lhe pediram para os incendiar. Para que passasse a sua luz para eles.
O pauzinho, que não sabia que fazer, retirou-se para um deserto, que era uma parte muito iluminada do jardim porque a luz ainda lá chegava. E ali falou com a luz. E conversaram, conversaram, conversaram.
De volta para o pé dos Homens, o pauzinho contou-lhes a conversa com a luz. Disse que não podia incendiá-los, porque se iria queimar. E que, portanto, tinha de pegar o fogo ao coração dos Homens. Era um pedido muito exigente... Alguns desistiram da ideia. Muitos, na verdade. Tinham medo do que lhes podia acontecer. Mas houve alguns que queriam arriscar...
Esses ficaram com o pauzinho até ao fim. Porque era incendiar um coração era um processo complicado. Mas eles queriam mesmo. E estes bichinhos que se chamavam Homens quando queriam uma coisa, lutavam mesmo muito por ela. E estes lutaram. E porque o corpo dos Homens era uma coisa bastante curiosa, descobriram que quando um coração está em chamas, os olhos iluminam-se. Parece como um milagre. Mas é uma coisa que ninguém se dava conta, a menos que se estivesse com muita atenção a isso.
Mas os homens - aqueles que gostavam muito da escuridão e não queriam cá luzes no meio deles - congeminaram um plano para apagar o pau. E levaram-no para uma cascata que havia no jardim. E a água apagou a luz. (Não se preocupem: o pau ficou bem. Voltou para a parte iluminada do jardim, onde a luz do coração grande o recebeu de braços abertos, lhe agradeceu muito por ter cumprido a sua missão e, no fim, devolveu-lhe a sua luz.)
Os Homens, aqueles dos olhos brilhantes, ficaram tristes, no principio. Pensavam que a luz tinha morrido e que viviriam sempre no cantinho escuro do jardim. Mas depressa perceberam que a luz não tinha morrido. Estava viva - e bem viva - no coração deles.
E porque não queriam que a luz se apagasse e porque queriam que iluminasse aquele canto do jardim, começaram a passar essa luz uns aos outros. Era ver corações a entregarem-se, a incendiarem-se. E, como o coração não se vê, era ver os olhos a brilharem.
Pois é...
Porque vos conto isto? Bem... Conto-vos porque, na verdade, tenho um segredo para vos contar...
Este fim-de-semana estive com uns meninos. Que já não via há muuuito tempo. Eles não sabiam que eu sabia esta história, e por isso não tiveram cuidado. E sabem que mais? Vi os olhos deles a brilhar... É: o coração deles está em chamas!
E hoje sorrio porque quero muito um coração como o deles...