O Chamamento de Deus (brother Sebastien, de Taizé)
Quando pensamos no chamamento de Deus, naquilo em que Deus nos pede que colaboremos, há logo uma série de perguntas que nos vêm à cabeça: “O que posso fazer?”; “A que posso entregar-me?”; “Posso descobrir por mim mesmo o que fazer ou preciso que alguém mo diga?”
De facto, vivemos num mundo em que somos cada vez mais autónomos e auto-confiantes. Mais que isso, a autonomia e a auto-confiança são características que se promovem e valorizam. E, quase sem nos apercebermos, é-nos cada vez mais difícil confiar nos outros. A nossa mente fica fechada a dar aos outros a decisão daquilo que temos de fazer ou daquilo que devemos fazer.
Contudo, repetidas vezes na nossa vida dizemos “seja feita a Vossa vontade”. Sempre que rezamos o Pai-Nosso estamos efectivamente a pedir a Deus que se concretize a Sua vontade na minha vida. Não é apenas que se faça a vontade do Pai naquelas coisas que a mim pouco me dizem ou que acontecem aos outros. É, precisamente, que se faça em mim aquilo que estiver nos planos do Pai. Para isto, preciso confiar em Deus. Preciso acreditar que “Deus quer a minha felicidade”, como vezes sem conta repetia o irmão Roger.
Quando o jovem rico vai ter com Jesus e Lhe pergunta “Que tenho de fazer para ter a vida eterna?”, no fundo, está a perguntar-Lhe precisamente “Qual o significado, qual o sentido da minha vida?”. Jesus, que o conhecia melhor que Ele próprio diz-Lhe que cumpra os 10 mandamentos, ao que o jovem prontamente responde que isso já fazia, que queria mais. O texto fala-nos do olhar de amor de Jesus quando lhe pede que vá para casa, venda tudo e que depois disso O siga. Vamos deter-nos um pouco nesta conversa.
Ainda que possa não o parecer, este jovem tem muito de um jovem dos dias de hoje. É um jovem que quer algo rápido, uma solução fácil. Se possível, uma fórmula, que se aplique e daí resulte a vida eterna. No fundo, ele sente um vazio dentro dele e quer preenche-lo o antes que puder. A resposta desplicante que dá a Jesus quando Este lhe fala dos 10 mandamentos faz-nos crer que o jovem não está preparado para seguir a Cristo. Mais que isso: o jovem quer ser especial, quer ser único. Os 10 mandamentos são uma coisa muito geral, são para todos. Ele quer aquilo que a ele, particularmente, o levará à vida eterna. Há um provébio alemão que se aplicaria bastante bem a esta situação: “Ao que não tem o pequeno, pouco importa o grande.”
Mas nesta resposta de Jesus temos uma grande lição para nós também, que procuramos ouvir o que Deus nos pede, a nós que temos sede de uma resposta – de preferência de forma rápida. Os 10 mandamentos são mandamentos de amor: amor a Deus, amor ao Próximo, amor, inclusivamente, a nós próprios. O primeiro que temos de fazer, a primeira coisa que Deus nos pede, é efectivamente que amemos. Comecemos precisamente por aquilo que nos parece ser o mais fácil: visitar os doentes, os prisioneiros, dar esmola aos pobres, ... Quantas vezes desvalorizamos estas acções? E, no fundo, foi Jesus quem disse que “O que fizeste aos pequenos, a mim o fizeste.” No fundo, como a Madre Teresa muitas vezes dizia também, Jesus na cruz fez um pedido tão simples como “Tenho sede!”
Mas há mais. Devemos deixar-nos interpelar pela Biblía. Para o jovem, os 10 mandamentos não eram novidade, porque já os tinha lido muitas vezes – provavelmente já os saberia de cor – e acreditava que já nada lhe podiam dizer. Mas vejamos o exemplo de São Francisco, que assistia num domingo à Missa, como o fazia todos os domingos. O Evangelho era aquele em que Jesus envia os seus discípulos, dois a dois, a pregar a sua palavra. Não foi a primeira vez que o ouvia, nem o padre lhe disse antes de começar a ler: “Francisco, ouve bem, que este Evangelho é para ti!” Mas naquele domingo, naquele Evangelho, naquelas palavras que tão bem conhecia, São Francisco sentiu-se chamado por Deus e entendeu a sua missão. De facto, o jovem podia voltar a ler os ditos mandamentos, deixar-se surpreender pelo que eles diziam. Podia, no fundo, ser um pouco mais humilde, um pouco menos ambicioso, no sentido em que a sua resposta foi, basicamente, algo como “Sim, eu faço o que tu me dizes. Sim, eu cumpro os 10 mandamentos. Mas, pelo menos, deixa-me cumpri-los de uma forma diferente, de uma forma especial. Deixa-me cumpri-los de uma forma que mais ninguém cumpra.” Se isto é o que pensamos também muitas vezes: não é por aí!
Uma boa maneira de descobrirmos aquilo a que Deus nos chama poderá ser o procurar na Biblía palavras que nos entusiasmem. Pensar naquela palavra, naquela frase, naquela leitura ou episódio que nos toca de forma especial – porque nem todas nos tocam da mesma maneira. E depois deixarmo-nos entusiasmar por ela. E porque entusiasmar não é mais do que deixar-se levar pelo espírito, deixar-nos levar pelo Espírito Santo que habita essa palavra. E então procurar nessa palavra qual o caminho a seguir, qual a minha vocação.
É um trabalho, muitas vezes de paciência. Mas atenção: Deus pede-nos paciência, não passividade. E paciência, neste caso, pode bem ser sinónimo de humildade. A humildade de percebermos que não podemos apanhar a Deus, que não podemos agarrar o Espírito Santo. Porque se o quero fazer, estou a pôr-me a mim no centro e, no fundo, não estou sequer a deixar que Deus seja Deus.
Posso dar-vos o exemplo da minha entrada aqui na comunidade de Taizé. Como quase todos os que aqui entramos, eu não fazia a mais pequena ideia daquilo que Deus quereria de mim neste comunidade. Não sabia, de todo, qual seria o meu papel aqui. Mas Deus, no meu caso através da comunidade, foi pedindo, e eu fui aceitando. E a comunidade, neste caso, são os meus irmãos, o prior da comunidade, os jovens que aqui vêm, os projectos que vão surgindo. Pouco a pouco, foi-se tornando clara para mim a minha vocação, a partir do momento em que Deus vinha ter comigo e eu lhe mostrava disponibilidade e lhe dizia que sim. Às vezes em pequenas coisas: “Sebastien, preparas o workshop sobre o chamamento de Deus?” Porque se fosse eu à procura dela, se tentasse agarrar a minha vocação, então não falaríamos de vocação, porque se trataria sempre da minha vontade e seria eu a estar no centro, e não a vontade de Deus.
Assim pensava o jovem da nossa história: ele quer agarrar a vida eterna, mais que deixar que ela o agarre. Não está desperto para as pequenas coisas que Deus lhe vai pedindo. Não dá esse “sim” às pequenas coisas. Ele não tem tempo para isso, porque quer passar rapidamente às coisas grandes.
E é por isso que Jesus lhe pede que vá e distribua a sua riqueza. O tempo é a grande riqueza de hoje. Hoje somos nós os que não queremos, não estamos dispostos a dar o nosso tempo. Essa é a riqueza que Deus nos pede que repartamos pelos demais, por quem mais o necessita: o nosso tempo. É todo um gesto de humildade o dar o nosso tempo, o ser capaz de dar esses pequenos sim’s na nossa vida. Mas só através desses pequenos grandes gestos de humildade podemos entrar na lógica de Deus e entender a que nos chama.
Debrucemo-nos agora numa outra perspectiva completamente diferente para entender a questão do chamamento de Deus. Como? Através dos nossos dons, dos nossos carismas. Porque, vendo bem as coisas, é um caminho muito mais fácil: na escola fazemos testes para percebermos quais são as nossas qualidades e quais as nossas fraquezas. Sabemos exactamente quais as disciplinas a que somos bons e quais aquelas a que deixamos bastante a desejar. Porque não fazer então o mesmo com os dons? Descubro aquilo que sou bom a fazer, descubro quais os meus dons, e sabendo quais eles são, sei facilmente para onde ir. Mas... a experiência diz-nos que não é assim tão simples. Onde está a dificuldade então?
Podemos encontrar várias teorias. Diz-se que um barco à vela não sai do sítio se não houver vento. Por outro lado, se estou à procura dos meus dons, já me estou a pôr novamente no centro e a relegar a Deus e à sua vontade para segundo plano. São Paulo é, provavelmente, quem melhor o consegue explicar na sua primeira carta aos Coríntios. Ele clarifica que há uma diversidade de dons concedida por um mesmo Espírito: que a cada um foi dada a capacidade de realizar diferentes obras, de acordo com os dons que o Espírito lhe aprouve atribuir. E é nessa diversidade de dons que somos em Cristo um só corpo, um corpo que é de amor, pois o amor de todos os carismas. Assim, diz-nos São Paulo que o fim último dos dons é o amor; que devemos, portanto, aplicá-los para amar. Posto isso, a vocação, a nossa vocação, não será mais do que o nosso caminho para amarmos, para aprendermos a amar.
Mas só os dons ou as qualidades fazem parte desse caminho? Logicamente que não. As fraquezas são parte tão ou mais importante desse caminho até aprender a amar. E este episódio que se passou comigo, acho que ilustra bem como isso é verdade.
Uma vez, ainda antes de me juntar à comunidade, fui convidado para um jantar importante. Um jantar de gala, onde ia estar ao lado de pessoas verdadeiramente importantes. Como era o meu primeiro jantar assim, fui alugar um smoking. Estava lindo, dentro dele. Um smoking. E sentia-me importante. Camisinha branca. Gravatinha. Tudo impecavelmente brilhante. Logicamente, houve direito a sessão fotográfica antes de sair de casa: eu e o smoking, o smoking e eu. E lá fomos nós. Quando já tinha saído do carro e me dirigia para o local do jantar, bem à frente dos meus olhos uma senhora tropeçou no passeio e caiu numa poça de lama. Tinha tantos sítios para onde cair. Mas caíu praticamente em cheio na poça de lama. E fiquei com um dilema. Devia ajudá-la, e eu sabia que sim. Mas ajudá-la implicaria, necessariamente, sujar o meu lindo smoking alugado. Também podia gritar por ajuda. Dizer algo como “Hey! Venham ajudar a senhora que caíu na lama... É que eu não posso...”. Mas não estava mais ninguém ali. E foi chato. Porque se tivesse sido no fim-de-semana anterior, em que a minha mãe me tinha pedido que eu lhe pintasse a casa e eu tinha vestidas as roupas mais velhas e sujas que encontrei, até podiam cair três senhoras à lama que eu ajudaria às três. Mas naquele dia eu estava de smoking...
E há tanta gente que vive em smoking todos os dias. Não despimos os smoking em nenhum momento do dia. Os nossos smokings podem ser a carreira, os amigos, a família, as nossas ideias... São tudo aquilo que nos impede de fazer o que realmente está certo. São tudo aquilo que nos impede de amar nas pequenas coisas. Porque, no fundo, Deus não pede mais que que vivamos sempre com a roupa de pintar a casa. Sempre dispostos. Sempre atentos ao que nos pede. E só com essa roupa poderemos descobri qual é então o nosso caminho para aprender a amar.