terça-feira, outubro 10, 2006

Era uma vez...

"Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele a meio da noite e lhe disser: 'Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu chegou agora de viagem e não tenho nada para lhe oferecer', e se ele lhe responder lá de dentro: 'Não me incomodes, a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados; não posso levantar-me para tos dar'. Eu vos digo: embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos, levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.» "

Era uma vez uma princesa que vivia no seu reino longínquo, pois todas as princesas das histórias vivem num reino longínquo. Vivia feliz e contente na casa de seu pai e sonhava encontrar um príncipe, porque outra característica das princesas das histórias é que sempre sonham encontrar um príncipe. Pelo menos a mim parece-me, das histórias que me lembro. Mas pode ser que esteja enganado.

E eis que, um dia, esse príncipe apareceu. Não era o típico príncipe das histórias, porque este era feio e tinha barba e os cabelos em pé. Também não se apaixonaram logo, como nas histórias, porque ela não gostou nem um bocadinho dele e ele teve bueda medo dela. [Nota aos paizinhos e educandos: utilizei a palavra "bueda" porque, de um modo ou de outro, já faz parte do vocabulário dos vossos filhos ou educandos. Não quero, de modo algum, chocar ou indignar os mais conservadores, mas apenas fazer-me entender aos olhos dos vossos filhos. Fim de nota.] Ela parecia-lhe fria e distante. Ele pareceu-lhe palhaço e míudo. É... Ele há coisas assim...

Mas o tempo foi passando, nesse reino tão longínquo que, na verdade, fica a pouco mais de cinco minutos de uma dada saída da A5...

Um dia, um reverendo [porque, para os que não sabem, no tempo dos reis e dos príncipes e desses todos não havia padres, ams reverendos] convidou-os a trabalhar juntos num projecto que tinha para a sua paróquia. Tinha a ver com luzes. Incendiar corações. Olhos a brilhar. Qualquer coisa assim. Também não é muito importante. O importante é dizer-vos o quão chateada a princesa ficou com o reverendo [depois deste acontecimento passou a chatear-se com alguma frequência com o reverendo] porque ele sabia que ela não gostava nada do príncipe. E o príncipe ficou com bueda [ver nota no parágrafo antes do anterior] medo por ter de trabalhar com a princesa mas, como era um pouco enfim, não disse nada e pontapé para a frente. Eu não sei, mas cá para mim o reverendo foi, no dia em que propôs que as duas realezas de diferentes famílias se juntassem naquele projecto, muito iluminado. Assim como quem já sabe qualquer coisa mas não quer dizer. Ou então não... Era só uma ideia...

O certo é que abraçaram o projecto. Ele mais que ela, porque tinha os braços maiores. Mas a vontade que ambos tinham de abraçar o projecto, essa sim, era a mesma. E era muita.

Começaram a habituar-se à presença um do outro. Começaram a falar um com o outro. Começaram a partilhar um com o outro. Conheceram as respectivas famílias. Conheceram as respectivas vidas. Em suma, e porque começo a cansar-me deste parágrafo, conheceram-se ou foram-se conhecendo e tudo o mais. E mudamos de parágrafo, por favor.

A páginas tantas, a princesa começou a sentir dentro dela uma coisa estranha. Parecia quaaaaase - logicamente que não era, mas que parecia parecia - que gostava do príncipe. Mas não podia ser, pensava. Mas era. Só que o príncipe não sentia a mesma coisa e então aí surgiu um problema... Era vê-la a correr atrás do príncipe e o príncipe a correr à frente dela. Como quem foge do rolo da massa, mas sem rolo da massa.

Hum... Como vos posso fazer entender? Basicamente o que se passava é que a princesa gostava do príncipe por amor. Mas o príncipe, porque era parvo ou palhaço ou, pura e simplesmente, parvo e palhaço, não gostava dela assim, ou pelo menos pensava não gostar. Ele há coisas nas histórias que são muito complicadas, tipo os príncipes que se tranformam em sapos e as princesas que são incomodadas por ervilhas que estão por baixo de 20 colchões. A coisa complicada de um gajo [Nota aos pais e educandos: espero que tenham entendido o porquê de utilizar a palavra "gajo". Se não entenderam... perguntem aos vossos filhos, caramba! Façam alguam coisa! Fim de nota.] entender nesta história é mesmo esta. Mas, se virmos bem, nem é assim tão complicada. O príncipe é que era tonto... O que é que se há-de fazer? Ele há pessoas assim...

E não há muito mais que contar. A história - que começou com um "era uma vez", como todas as histórias de principes e princesas - vai ter que acabar com um "e viveram felizes para sempre", como todas as histórias de príncipes e princesas. Por isso, alguma coisa tem que levar uma volta no enredo.

Levou o príncipe. A verdade é que ele nunca entendeu muito bem porquê, mas algo fez com que ele passasse a ver a princesa de outra forma. [Talvez lhe tenha entrado algum cisco ou seja problema das cataratas... Não sei... Mas algo se passou naqueles olhinhos... Ah pois foi...] E a princesa, que não se tinha fartado nunca de correr, que tinha sempre lutado e sofrido pelo príncipe [Nota aos pais e educandos: reparem como sou querido. Poderia aqui dizer como foram estas lutas e estes sofrimentos. Mas não digo! E porquê? Para proteger os vossos filhos da violência gratuita e desnecessária. Vêem? E depois venham cá queixar-se que "ah e tal e não sei quê", pah...], pode finalmente descansar e repousar nos seus braços.

Uns dias, o sol amanhecia forte e iluminava tudo, e as caras dos príncipes iluminavam-se também e sorriam imenso para o mundo. Outros dias, o sol era pouco e tinha de um deles de iluminar o outro com o seu sorriso. Com ósculos [Nota aos pais e educandos: digo "ósculos" para não dizer "beijinhos" que, parecendo que não, daria um ar muito mais pornográfico à coisa, e isso nós não queremos... E estamos quites quanto ao "bueda" e ao "gajo" de há um bocadinho...], com cartas ou, tão simplesmente, contando histórias um ou outro, como esta que agora vos conto a vocês.

É ou não é uma história bonita? É sim senhor... Mas, mesmo que não fosse, falta a cereja em cima do bolo, o chantilly em cima dos morangos [Nota: pode substituir-se a palavra "chantilly" pela palavra "açúcar", se se der o caso de a criança não saber o que é chantilly e estar mais habituada a ver os morangos com açucar], o auge - aquilo por que todos vocês esperavam. Já se esqueceram? Poizé... E viveram felizes para sempre...