Os cavaleiros também caem
Querida Mãe,
faz já tanto que aqui não venho. Assim, como venho hoje e agora. Simplesmente a passar tempo contigo. Cantar para ti. Há já tanto que aqui não vinha.
Acho que perdi o hábito. Talvez seja vergonha. Faço de tudo. Tenho o coração a correr. Liturgia. Caderno de cânticos. Um lápis em falta. Viola. Bíblia. Qualquer coisa é boa o suficiente para ser distracção.
E foi por isso que resolvi escrever. Quero muito prometer-te escrever todos os dias. Juro que quero, Mãe. Mas tenho medo de falhar. Se virmos bem, já são tantas as promessas que te faço e não cumpro. Promessas que nunca o deixam de ser. E a verdade é que há dias, como o de ontem, em que me dizes claramente qual é a razão de não as cumprir.
Não acreditar.
Acredito em ti. Acredito – como podia não o fazer? – no teu Filho e no nosso Pai. Mas não acredito nas promessas que te faço. Acho que ainda não acredito verdadeiramente na possibilidade de ser santo. O que, em última instância, é não acreditar nas promessas do teu Filho, em nome do Pai, e pela intercessão do Santo Espírito.
Acho que sim, que já acreditei. Era mais menino, talvez. E fui perdendo esse menino. A Joana às vezes diz que é do trabalho. Se calhar ajudou, mas não acho que seja culpa só do trabalho. Acho que é culpa minha, que não cuidei. De mim. Do meu coração. Da sua relação contigo. Acho que descurei um bocadinho esse aspecto – ou que comecei a descurá-lo – no exacto momento em que tive a certeza do teu amor por mim. De tal forma te dei por certa que me comecei a descuidar comigo e connosco.
E não quero. E não quero, sobretudo, porque sei o quentinho que é estar ao pé de ti. Sei o bom que é estar nos teus braços e poder abraçar o Deus Menino. Não quero afastar-me disso. Não quero perdê-lo. Não quero que o meu coração cresça e seja como o dos adultos, que só querem o que não têm porque não sabem cuidar do que cativam.
Olha se tu tivesses sido assim... Se o orgulho te tivesse subido à cabeça quando te soubeste eleita
por Deus. Permitiria Deus que o seu Filho nascesse ainda assim? É indiferente. Porque tu não foste orgulhosa. Porque tu cuidaste o Jesus menino, desde a primeira noite até à cruz como ninguém até hoje. E é assim que eu o quero cuidar também. Tê-lo, guardá-lo, sê-lo dentro de mim.
"Senhor, a ti me entrego
Com todo o coração.
Eu nunca fui tão sincero.
Não sei mais o que fazer:
Sem ti eu não sei viver.
Ouve a minha oração.
Senhor, dá-me a tua mão."
Quantas e quantas vezes te cantei já estas palavras. E tas escrevi, muitas quantas outras mais. E voltarei a escrever, Senhor. Não sei, efectivamente, mais o que fazer, mas sei, claramente, que sem ti não sei viver.
Ajuda-me, Senhor, a tranformar o este coração, cada vez mais adulto, cada vez mais de pedra. E dá-me um coração igual ao teu, igual ao da tua mãe. Assim simples. E que possa ser trespassado por uma qualquer espada. Se vocês o não mereceram, mereço-o eu e o aceito.
E que isso aumente em mim não a certeza do teu amor, mas a valentia do meu. Que aumente e recorde a minha vontade, o meu projecto, de ser farol, de ser cavaleiro, de ser santo no Mundo. E empunhar, valente, a tua espada, e ser diferente, e abrir portas dos corações para que possa entrar o teu amor. É assim que eu quero ser. É assim...
Assim me ajudes tu, Senhor!
Teu cavaleiro, vosso Santo,
Luis Oliveira