quinta-feira, maio 03, 2007

O Amor

Desde sempre foi para o Homem complicado explicar o que unia o homem à mulher e esta àquele. Sabia ser um sentimento forte, algo que atraía, como que natural, quase que instintivo. Mas explicá-lo... explicá-lo era algo complicado.
Por isso, o livro dos Génesis arranja uma forma simples de esclarecer as dúvidas e desfazer mistérios. Deus, aquando da criação do Mundo, cria o homem à sua semelhança. Depois, vendo-o só e achando que não era conveniente que assim continuasse, retirou-lhe uma costela enquanto dormia e dela fez a mulher. Quando despertou, o homem faz um primeiro comentário, tido por muitos como o primeiro “poema de amor” da Biblia:
Então, o homem exclamou:

“Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem.”
Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne.

(Génesis 2, 23-24)

“Osso dos meus ossos”. “Carne da minha carne”. A natureza humana do homem é a mesma natureza humana da mulher. As mesmas dificuldades, as mesmas tentações, mas também os mesmos sentimentos e as mesmas necessidades e ambições. Mas mais que isso. Eles são “carne da mesma carne”. Não apenas porque um nasce do outro, mas porque um e outro são um só. Assim devem ser. Uma mesma carne. Um mesmo corpo. Um único ser. Indivisivel. Mais forte até que os laços parentescos de pais para filhos. Não por acaso Moisés pôde ler nas tábuas da lei:

Não cometerás adultério. [...]
Não desejarás a mulher do teu próximo.

(Êxodo 20, 14.17b)


Não foi algo novo. Já estava implícito esta vontade de Deus de que o homem e a mulher fossem um só. Mas não foi fácil ao homem e nem à sua mulher entenderem isto. Não entenderam, simplesmente. Porque era mais fácil o não entender.
E Deus, misericordioso e cheio de amor, resolve mostrar-se. Se, como diz São João, “Deus é amor” (1Jo 4, 8b), ao mostrar-se, ao revelar-se, Deus mostraria ao homem o que é o amor. E envia o Seu Filho. Com uma única missão: explicar aos homens (e mulheres) o que é o amor.
Muitos O viram. Muitos O ouviram. Não todos o compreenderam. De todos, São Paulo – que o viu e ouviu apenas depois de ressuscitado – foi talvez dos que o melhor compreenderam. E porque era inteligente e literado, escreve ele mesmo – não sem a inspiração divina – um novo poema de amor, a que deu o nome de Cântico ao Amor.

Vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros.
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.
O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará. [...]
Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.
(São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios 12, 31b; 13, 1-8a.13)

O amor é “um caminho”, diz ele. “Um caminho que ultrapassa todos os outros”. Um caminho duradouro. Não um atalho, por onde hoje vou e amanhã já não sei bem por onde fui. Não: um caminho que “jamais passará”. Marcado. Pelo qual eu sei que devo ir. Pelo qual eu quero ir.
Porque no fundo, na minha vida, posso ter mapas, posso ter setas, posso ter sinais que me indicam o caminho para chegar a Deus, para estar com Deus. Posso entregar-me ao saber e conhecer “toda a ciência”. Posso entregar-me à fé e “transportar montanhas”. Posso entregar-me à esperança “distribuir os meus bens” e “entregar o meu [próprio] corpo”. Mas com nenhum desses caminhos eu chego tão bem a Deus como pelo amor.
Não é um caminho fácil. Exige paciência, verdade, perdão. Exige o desprendimento da inveja, da arrogância, do orgulho, do interesse próprio, da ira, do ódio. Mas não são isto tudo características do homem, que Deus mesmo lhe entregou quando o criou? Não nascemos todos com propensão a cometer tudo isto?
A resposta é não.

Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. [...]
Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa.

(Génesis 1, 27-28.31a)


O homem é imagem de Deus. É igual a Ele. Está cheio de amor por dentro. Poderia ser uma fonte de amor. Mas escolheu não ser. Uma vez mais, porque o caminho mais fácil era não o ser.
O homem não deixou de ser amor por ter comido do fruto. Deixou de ser amor a partir do momento em que se julgou auto-suficiente, em que deixou de amar a Deus, como Deus nunca deixou de o amar. O homem, hoje como desde o primeiro homem, vê-se como um em si mesmo. Julga-se completo em si mesmo. E contudo, não deixa de sentir um vazio dentro de si. Um vazio que não é mais do que o espaço em branco deixado pela ausência do amor.
São Paulo, sempre esclarecido, fala também sobre esta situação. E lembra um exemplo prático que Deus deu de como o homem deve amar.

Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a, no banho da água, pela palavra. Ele quis apresentá-la esplêndida, como Igreja sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada. Assim devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo; pelo contrário, alimenta-o e cuida dele, como Cristo faz à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo.
Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério; mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja. De qualquer modo, também vós: cada um ame a sua mulher como a si mesmo; e a mulher respeite o seu marido.
(São Paulo, Carta aos Efésios 5, 25-33)


É só isto. Amar não é difícil. É “entregar-se para santificar e purificar”. É querer ver o outro “sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santo e imaculado”. Se Cristo, que foi homem sem deixar de ser Deus, foi capaz de o fazer, porque não há-de ser o homem, que tem em si a Deus sem deixar de ser homem, capaz de o fazer também?
“Amar como a si mesmo”. O Apóstolo sabe o egoísmo que o homem deixa que reine em si. Esse desejo, esse sentimento, de que é grande, de que tudo pode. O homem ama-se a si mesmo. Mas isso não é amor. O amor é quando pomos esse sentimento no outro. E o alimentamos e o cuidamos – “como Cristo faz à Igreja”.
E porque, no fundo, a mensagem de Deus é uma só, como é um só o Seu amor, volta São Paulo a dizer que homem e mulher são “uma só carne” e como um só devem viver. O Cristo que está unido à Igreja e a une num só corpo, é o mesmo Cristo que está unido ao marido e a mulher e os une e reune num só corpo. Um corpo onde reina a paciência, a boa vontade, a verdade, o perdão, a esperança. No fundo, um corpo só, onde Deus vive, e que faz Deus viver no Mundo e para o Mundo.